Treinos em viagens




Eu sei, tem gente que acha "nada a ver" treinar, fazer qualquer exercício programado, quando está viajando, especialmente para fora, naturalmente em uma viagem que não tem nada a ver com corrida (várias minhas já tiveram). "Credo, off é de tudo". 

Eu, francamente, com mais de 45 anos de idade, não posso me dar ao luxo de pensar nessa hipótese. Diferente dos 30, depois dos 40, um mês sem treino pode botar a perder vários meses de esforço. Porque é assim, injusto mesmo: você cumpre o proposto, pega peso, faz o fortalecimento, se esforça, por muito tempo, para ter o resultado (próximo ao) que você deseja. Depois, esforço para manter conquista. E eis que, fica off uns dias, e depois parece que tudo foi em vão. Não foi. Quase foi. E dá trabalho a retomada. Então, eu tenho mais preguiça da retomada difícil do que de fazer enquanto eu estou viajando. Mas sou eu. Se você não tem a minha idade, nem essa situação, volta facinho para o ponto de onde parou, eu te invejo, não se identifique para mim, e siga. Sua hora vai chegar. 

Lembro a vocês que em viagens normalmente a alimentação muda. Normalíssimo, aliás, é para isso que sou regrada na vida normal, para me permitir exceções. Não quero voltar triste da viagem porque não experimentei comida local, por exemplo. Faz parte da experiência da viagem, para mim, a comida, o momento das refeições, que geralmente é em clima de confraternização, e regado a vinho, para completar o momento. Não nego. E não, não dá para pensar nisso só na volta. E aí, sério, você não vai fazer exercício?

Claro que se você vai viajar de quinta a domingo, num feriadão, se não encaixar um treino, o estrago é contornável. Mas eu já fiquei mais de 20 dias na Itália, e agora mais de 40 em Portugal. Tem que criar uma rotina mínima. 

"Mas como?". Vou dar aquela dica batida, que na viagem funciona muito: ande. Faça o máximo possível a pé. Além de tudo, é a melhor opção para conhecer a maioria dos lugares. Eu gosto de andar. Não gosto de caminhada como exercício, vejam bem. Quem corre, não caminha. Mas adoro andar cidades inteiras, e como eu vim sem bússola ao mundo, é o único jeito de eu aprender a me localizar sem gps do celular, andando, repetindo, até aprender o caminho ou a lógica do caminho. 

Mas faz tanta diferença? Olha, eu ando com relógio que marca os km do dia. E eu tive dias de 23, 24 km rodados. E sem correr. Só andando pela cidade, museus, indo para casa, para a aula. Claro que isso faz diferença. Por mais que a gente saiba que não é o exercício que emagrece, e sim a dieta, o gasto de energia ajuda pelo menos a não engordar (que, convenhamos, já é baita vantagem estando fora de casa passeando), e mantém o metabolismo no ritmo normal. E ainda ajuda na digestão ir embora a pé depois de um almoço incrível e gordinho. Fora que te mantém em movimento, e a disposição continua.

Dentro da linha de andar, nunca corto caminho. E se tiver o caminho mais difícil, eu faço. Em Coimbra, eu estava próximo ao rio Montego, coisa linda da minha vida. E a universidade fica no topo de tudo na cidade, eram só 700m de distância de casa, mas em subida pura. Íngreme e infinita. Procurei caminho mais fácil? Não. Vi que tinha um ônibus elétrico que subia. Peguei? Não. Eu sabia que o mínimo a fazer para manter o movimento era subir todos os dias para a universidade. Em alguns dias, mais de uma vez. Subir ainda vale como fortalecimento além de cárdio, e senti os glúteos, o que dá uma alegria. 

O que sugiro é fazer uma análise do que você tem na sua viagem. Em Gramado, ficamos em um hotel afastado do centro. Tentei correr, não tinha calçada, era estrada, nada seguro, e desisti. No hotel tinha uma academia ótima, usei quase todos os dias. Em vez de corrida, fiz elíptico. E fiz muita musculação. Foi uma semana, não comprometeu resistência na corrida, e fortaleci como nunca. Consciência, então! Fiz isso também em Trancoso, mas lá acrescentei uma corrida na areia fofa. Sim, o ruim. O pior possível, porque era sempre por pouco tempo, a extensão de areia era pequena. o treino era curto. Treino curto tem que ser...duro. Forte. Pesado. 

É a outra dica: se não sabe como vai ser o treino, quanto tempo vai durar, na dúvida, faça o mais difícil. Para garantir. 

Claro que se seu exercício é correr,  é uma mão na roda em várias viagens. Até para conhecer cidades, eu adoro. Me perco, mas adoro. Em Gramado não dava, adaptei, o hotel tinha uma academia melhor do que qualquer uma que eu poderia pagar, e Trancoso também. 

Mas em Coimbra não tinha academia. Correr salvou o período. E eram treinos curtos no geral, um frio do caramba (5, 6 graus), com vento, e tinha uma pista na beira do rio. Usei, mas era curta. Fui para o parque verde também em volta daquela parte do rio, delícia, lindo, e tinha ponte. Sobe ponte, desce ponte, sobe ponte de novo. Difícil, lembra? Para chegar em 8km de percurso eu dava várias voltas no parque e na pista, a cidade é pequena na parte possível de correr (não vou correr em rua histórica de pedra), então não pode ser moleza. Na pista, que era plana, eu fazia treino de velocidade.  Masssss, atenção: o compromisso é de se movimentar na viagem. Não é de cumprir planilha, treino preparado. Porque senão é frustração na certa, são muitos imprevistos no período e não tem sentido perder eventos sociais por treino nessas ocasiões. O que era velocidade? algo além do conforto do dia. Sim, do dia. Tinha dias de conforto em pace 5'40, outros de 5'25, então eu via o conforto do dia, e acelerava além desse conforto por 1 minutos, 2 minutos, 400m, e fazia um treino intervalado, para estimular. Nada de estabelecer ritmo, velocidade, pace...na situação atual nem posso, com lesão crônica, treino bom é treino completamente feito.

Graças a isso, em um domingo que fui treinar cedo, descobri que ia ter uma prova com largada no parque, claro que me inscrevi na louca na hora, e tive uma daquelas experiências memoráveis na vida de uma corredora, foram 10km, que eu não corria há tempos, subindo uma ponte (eu nunca conseguiria se não estivesse subindo meu morro para a universidade e treinando na cidade), vendo pontos turísticos, passando na frente do meu hotel, foi lindo demais. Prêmio para quem está na hora certa no lugar certo (a foto acima é da prova, sim, profissional, sonho, né?) 

Estabeleci o seguinte: tinha que treinar 4 vezes por semana. Três de corrida, necessariamente. E o resto? ahhhh, aí vem o resto: não tinha peso para levantar. Só o meu. Então é funcional. E os elásticos que levei. Claro que perdi massa magra. Não seria suficiente, mas muito melhor do que não fazer. Fiz os clássicos: TODOS OS DIAS eu fazia agachamento, e eu estava no segundo andar no hotel, que não tinha elevador, além da minha caminhada. Fazia flexão, tríceps na cadeira, muito básico e sem desculpas, né? Fazia avanço. Sem peso? Melhor do que nada. Panturrilha no degrau da escada, ponte para glúteos, e vários outros da Maíra Tavares, que eu pago consultoria, mas tem tanto exercício que ela explica no instagram, que para a situação, seria suficiente. Eu levo meus elásticos, as bands, para todos os lugares, não ocupam espaços e tenho vários exercícios com elas. 

Por último, tem que estabelecer quando vai fazer exercício. Não, não é quando der vontade (hahahahahaha), nem quando...der tempo. Como sempre, é compromisso. Eu já prefiro fazer de manhã, e em viagem mais ainda. Final do dia todo mundo combina alguma coisa, entre o fim dos passeios (ou aulas, no meu caso) e jantar, não dá tempo, e sem conhecer bem a cidade, eu não corro à noite. No caso, ainda estava frio. Fazer de manhã é começar o dia com a missão cumprida. 

Força de vontade? não, querides, que isso é unicórnio. Quando se tem o hábito dos exercícios, não fazer é que é estranho. O que tenho é disciplina para manter o hábito. Levo tênis e roupa adequada. Eu sabia que em Portugal estaria frio, levei calça, odeio correr de calça, mas corri de calça. Levei corta vento, faixa da cabeça, tudo. Eu fiz uma live sobre o livro O Poder do Hábito, está no instagram @evoluirdireitodotrabalho, e o negócio é ter a deixa para a ação e então virar hábito, e não só pela recompensa, porque em alguns casos ela demora e pode não ser suficiente para você persistir. A deixa é isso: levar tudo que é necessário, e deixar separado de véspera. Amanhã vou correr. Isso não é uma afirmação. É uma resolução, e eu deixava tudo pronto ao lado da cama, pertinho do aquecedor para a roupa estar quentinha de manhã. Eu acordava e não ficava pensando, eu só me vestia e aí, pronta, não tem como desistir. Quando chegava na calçada, vento gelado, pensava: que idiota. Mas agora já estava lá. E a gente nunca se arrepende de ir, só de não ter ido.



E depois fui para Madrid encontrar marido e filho. Lá fui aos Jardins de Eduardo II dar uma corridinha (foto acima). Fiz uma pesquisa, vi o que ficava mais perto do apartamento em que estávamos, era 1,5km, ótimo para já aquecer, um caminho gostoso com cara de city tour ainda, passava na frente do Parlamento, do Museu do Prado... E o parque é incrível, só eu da família que fui, duas vezes!! Na primeira fui bem conservadora no treino porque eu me perco em parques, mais do que em outros lugares, e fico meio em pânico se não vejo um portão de saída (sem comentários), depois eu entendi a lógica e segui corredores, porque havia muitos!! E alegria de corredor é ver outro corredor. Correr em  Madri foi uma experiência deliciosa, e a pista era cheia de subidinhas, aclives, foram dois treinos puxados, bem como tem que ser, porque eu não tinha mais do que 40 minutos.

Em Lisboa complicou. Fiquei longe de tudo. Não gosto de correr na rua, no meio das pessoas. Só para chegar a algum lugar. E o possível era a praça da Espanha, em reformas, com degraus dentro dela, ou seja, sobrava correr em volta, um percurso de quase 2km. Parecia desanimador, mas era só subida e descida, o que já deu aquela dificultada necessária. Mas era chato mesmo. Fui uma vez só. Como tinha academia no hotel, finalmente pude pegar uns pesos e escolhi fazer musculação nos outros dias. 

Quando fui para Roma em 2018, eu tentei ao máximo correr nos dias em que estive sozinha, ia para a villa borghese, um parque maravilhoso no qual me perdi absolutamente todas as vezes que fui, o que tornou sempre o treino maior. Por que? Porque Arthur, meu filho, ia chegar, sozinho, e eu não podia deixá-lo no hotel e correr. Depois que ele chegou, eu fiz o fortalecimento no quarto, no esquema funcional e elástico. Percebem? eu organizo para fazer o possível no que tenho. Pesquiso, tento descobrir antes para saber o que vou poder fazer quando estiver, sem desculpas. Eu também arrumo desculpas. 

Claro que eu sabia que não ia acordar cedo para correr na sexta feira, com lançamento do meu livro na quinta à noite em Coimbra, um dos eventos mais memoráveis e felizes da minha existência.  Então eu treinei na quinta de manhã, e estava plena à noite. Na sexta dormi até o limite de não chegar atrasada na aula, só calculando para pegar meu café no caminho e subir minha morreba para a aula. 

No final das contas, estando sozinha é mais fácil, a não ser que você esteja com quem treina como você. Não é o caso aqui em casa. Depois que os meninos chegaram, eu sabia que ia ser mais difícil, por isso me garanti antes, mas avisei logo: já achei lugar para correr. Ninguém nem diz nada, porque sabem que essa sou eu. Depois sou parceira para tudo, e faço exercício cedo, de modo a não atrapalhar nenhuma programação familiar. This is my thing, então eu adapto. 

Não é para ser doloroso, uma punição. Mas é, sim, um compromisso. Eu gosto de fazer exercício, e a corrida é meu relaxamento, minha alegria. Musculação, ou o fortalecimento possível, é o que permitirá que eu tenha autonomia, pela minha força. Sabia que com o tempo, eu ia ficar infeliz se não corresse na viagem. E autoconhecimento é tudo. Me organizei para fazer como eu ficaria feliz. Correndo, fazendo uns fortalecimentos, compensando excessos aqui e ali. Equilíbrio. Não deixei de comer, beber, nada do que eu queria, mas em algum momento tive que moderar nas porções. Comprei um bolo de amêndoas no supermercado super lindo e apetitoso, eu cheia de fome. Comi uma fatia, e levei o resto para minha turma de aula no dia seguinte. Comi, fui feliz, mas não me passei e compartilhei minha alegria com quem eu estava. É sobre isso. Sobre escolhas, e de lidar com as consequências das escolhas. Como sempre. 
























 



























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