Realizando o sonho, ainda que com atraso: a Meia Maratona de Berlim
Quando era adolescente, meu irmão Cesar viajou para a Alemanha com um amigo; em 2012 ou 2013, meu irmão Ralf viajou com meu pai e a mãe dele para a Alemanha. Ambos patrocinados pelo nosso pai. Eu era a única a nunca ter ido. Percebendo minha falta de curiosidade, digamos assim, em conhecer o país dos ancestrais paternos, meu pai quis me oferecer uma viagem para correr em Berlim, ou alguma outra cidade da Alemanha, que eu só me interesse se fôssemos juntos. (aqui eu conto isso com detalhes https://vidaeumacorrida.blogspot.com/2017/11/diarios-de-viagem-parte-1-por-que-palma.html) Era 2017, não deu certo plano A, que pena, mas ainda assim ele me pagou a "viagem para correr" daquele ano, em Palma de Mallorca, que até hoje foi a meia maratona mais linda que eu já fiz, na época fiz um baita tempo, e entreguei a medalha para ele quando cheguei, ele ficou bem feliz. (https://vidaeumacorrida.blogspot.com/2017/12/corri-minha-melhor-meia-maratona-em.html )
Mas eu sei que ele queria que eu corresse em Berlim. Sinceramente, durante anos não pensei mais nisso. Ano passado, realmente por acaso, me deparei com o prazo para o sorteio de vagas para a meia de Berlim deste ano. Me inscrevi, e, ora ora, fui sorteada! Assim como fui para a meia de NY de 2011, que deu origem a praticamente o primeiro post deste modesto blog. (veja aqui https://vidaeumacorrida.blogspot.com/2012/04/corri-meia-maratona-de-ny.html). Caso você não seja da bolha corredora, esclareço que adquiri o direito a ter uma vaga, mas eu que paguei por ela de todo jeito. E foi assim que fui para Berlim agora em março para correr a meia maratona, uma prova imensa, com mais de 40 mil corredores.
Mas como a maioria de quem me lê é da bolha (cada vez maior) da corrida, vamos também aos dados e à experiência. Aprendi muito na meia maratona de Lisboa (https://vidaeumacorrida.blogspot.com/2025/04/corri-meia-maratona-de-lisboa.html), e acho que a coisa mais importante foi: hospede-se perto da chegada da prova. Se isso for também perto da largada, melhor ainda. Mas priorize a chegada. A gente termina uma prova dessas totalmente anestesiada, meio fora de órbita, endorfinada, e com pouco oxigênio no cérebro (uma forma simpática de dizer que parece meio tansa). Então tem que ser fácil ir embora depois de correr por aquele tempo todo (no meu caso, quase duas horas). Agora, se não for possível, eu sugiro fortemente que use o guarda volumes para ter uma muda de roupa e algo que te aqueça se for em lugar frio (inclusive meias secas), para depois poder se deslocar. Mulheres, aliás, não tem outra opção. Não podemos ficar com roupa molhada na parte de baixo, afinal ninguém quer ter que usar o seguro de viagem para tratar infecção urinária (ou coisa pior) e estragar o rolê, né?
O clima estava perfeito para correr distância um pouco maior, como a meia maratona, mas eu confesso que para mim, estava frio. Eu tinha consultado a temperatura de outros anos na mesma época, era mais quentinho, tipo 15, 16 graus. Este ano estava atípico e a primavera demorando a chegar. Olha, fazia tempo que eu não sentia frio, porque a menopausa tirou isso de mim, então pensem que estava frio de verdade. E no sábado, um tempo bem feinho, ameaçando chover. Frio tipo 4, 5 graus, com vento. Não gosto.
Mas tem diversas vantagens para correr, algumas bem práticas, como não se preocupar se a hidratação da prova, e a da sua garrafinha, vai estar em temperatura boa, que no Brasil significa gelada, quase sempre (e quase sempre difícil). Tomar isotônico quente é fatal para o intestino, eu digo, além de horrível. No frio basta deixar a garrafinha no triste frigobar e já vai estar ótima. No final do post estão as informações do que deu certo para mim quanto à hidratação, comida, suplementação, etc. A prova começa num horário que é muuuuito digno para quem odeia acordar cedo: minha largada era 10h24 da manhã. Delícia né não? Isso também significa que não está aquele frio de início de dia.
No meu caso, entrei na Europa por Frankfurt e dormi uma noite lá, para ir para Berlim. Foi uma escolha arriscada porque só teria o sábado para pegar o kit, mas eu precisava ter certeza de que ia descansar, e estava com medo de atraso no vôo ou imigração e perder um trem no próprio dia de chegada (o que no me causa um estresse tremendo, porque sou assim). Além disso, se eu fosse de Frankfurt para Berlim logo em seguida, teria que me virar para chegar no hotel bem tarde da noite e acordar de manhã mais cedo para pegar o kit, porque eu ficaria ansiosa de todo jeito. Assim, eu fui dormir antes das 21h, e sábado às 6h estava pegando o trem para Berlim, que, aliás, atrasou uma hora a chegada, fiquei #decepcionada com a falta de pontualidade.
Sobre a imigração: deu tudo certo, embora o vôo estivesse bem cheio, Frankfurt é um aeroporto enorme (tenho alguns traumas com ele), e no final das contas a fila dos estrangeiros (meu passaporte é brasileiro) não era nada demais, foi bem tranquilo. Como eu tinha viajado em janeiro para a Itália para um evento acadêmico, já tinha feito toda a parada de colocar as digitais (foi num totem, em Milão, super fácil), foto, cadastrado passaporte, etc, então foi bem rápido no totem, mas ainda tem a passagem pela pessoa da imigração.
Tá, vou contar. Eu estava observando como o profissional estava sendo com as pessoas na minha frente, e vi quase todo mundo ter que procurar no celular a passagem de retorno, mostrar reserva de hotel, pastinhas sendo abertas, etc. Desta vez, eu só tinha impresso o seguro de viagem, o resto estava só na nuvem. Chegando minha vez, ele perguntou o que eu tinha ido fazer na Alemanha, e eu, feliz da vida, disse: vou correr a meia maratona de Berlim. Quando eu falei isso em Portugal (que ia correr a meia maratona de Lisboa), o cara do guichê levantou a cabeça, abriu um sorriso, carimbou e disse: boa corrida. Mas o moço de Frankfurt olhou bem para mim, e disse: você tem como provar que vai correr essa prova? Sim, minha gente. Ele duvidou. Depois fiquei pensando que ele deve ter achado que não tenho cara de corredora, mas olha, imaginar que alguém inventa isso para entrar num país, é ter sérios problemas de confiança na vida. Eu tinha tudo bem fácil no celular, porque a organização da meia de Berlim manda muitos emails para a gente, logo encontrei e mostrei, o que causou um visível constrangimento no rapaz. Ele ficou tão sem graça (ou decepcionado) que não me perguntou nada mais, carimbou e acenou a cabeça. Ah, sim, eu viajei sem mala despachada, o que é um adianto de vida imenso na chegada (a bagagem de quem não é europeu estava em uma esteira separada sujeita a verificação na hora por policiais).
Eu tinha agendado horário de retirada do kit, por sugestão da organização, e perdi esse horário. Mas não tive nenhum prejuízo, porque embora estivesse bem cheio o lugar, era imenso e tinha muita gente para atender, num funcionamento impecável da parte operacional, e seguia uma lógica que era impossível a gente se atrapalhar.
Devo dizer aqui que eu estava sozinha, como em Lisboa. Eu sou chata em vésperas de prova importante (e era bem importante para mim). Eu sei que sou. Tenho minhas mandingas, meus costumes, minhas comidas, forma de tomar água, descanso, e sei que não sou boa companhia para quem estiver junto e não for correr. Sabendo disso, ou viajo com amiga que vai correr, ou vou sozinha pelo menos para essa parte. E eu gosto de verdade desse momento e estar só, então para mim está tudo bem. Dessa vez, a barreira da língua me abalou, porque eu não entendo NADA em alemão, e em Frankfurt ninguém se esforça para falar um inglês razoável, só penso no quanto admiro quem não fala nenhum idioma além do português e se aventura em países assim.
Na saída da estação de trem de Berlim, para ir direto pegar o kit, que é no antigo aeroporto, um lugar bem legal, eu decidi pegar um táxi, mesmo sabendo que seria fácil e barato pegar o metrô, porque eu estava com a minha malinha (de mão) e a mochila. E o motorista era taxista de Florianopolis. Não, não era. Só o estilo: mapa para que, se conhece a cidade? mas a cidade estava com trânsito já alterado pela marcação do percurso da prova, e em obras, então esse homem começou a dar voltas e voltas, aquele valor no taxímetro subindo, minha gente, já estava em 18 euros, e quando vi, estávamos passando na frente da estação de trem. Eu falei em inglês: não é possível que a gente esteja aqui de novo. Ele ficou muito, muito envergonhado. E aí vem o ponto: ele desligou o taxímetro , pediu desculpas em um inglês ruim e botou o caminho no mapa, e eu paguei 18 euros alguns km depois.
A expo é massa, mas sinceramente, para brasileiro, não é isso tudo, eu já falei isso antes. A gente gosta muito de uma feira, de uma exposição, de uma lojinha, qualquer prova regional boa tem muitos expositores (vide as da Corre Brasil, em geral, a Oakberry, em Floripa, fora as grandes), então me impressionar é difícil. O stand da Adidas é incrível, claro, tem uns stands com brincadeiras tipo correr na esteira sei lá quanto e ganhar um Yopro, lugar para testar pisada, tenda da Garmin, e uma infinidade de tendas de roupas, gel de carbo, bebidas, toda aquela alegria de corredor. Comprei a camiseta da prova, que eu não tinha adquirido na inscrição (eu sempre gosto de ver como vai ser, porque tem coisa muito feia. Não era o caso, era linda.)Acabei comprando uns geis da marca GU, que fazia anos que eu não consumia, nuns sabores diferentes. Essa informação será relevante depois.
Feito, fui para o hotel e quis dar uma andada na região para ter ideia da distância até a largada: 1,6km. muito bom para aquecer, ir sentindo o clima. Aliás, outra vantagem de hotel próximo à largada, no caso: muita gente na mesma vibe que você. E, no caso desse hotel em particular, os recepcionistas, atendentes, todo mundo estava bem empolgado, desejando boa prova, fazendo gracinha do tipo: vai ganhar, né? Bem fofos e bem diferentes dos alemães em geral, que são bem fechados. Mas bem fechados mesmo, ainda mais para quem é latina sorridente. Fora que eles sempre tinham certeza de que eu falava alemão, e quando eu pedia para falar em inglês, quase pedindo desculpas, era uma decepção nada disfarçada.
Tive o privilégio de jantar com o Ricardo, que foi meu aluno no século passado (de verdade, vocês sabem), e viramos amigos, como acontecia muito naquela época (a diferença de idade era muito pequena entre os alunos e eu, e muitos eram inclusive mais velhos do que eu - não é o caso do Ricardo). Ele mora em Berlim, e graças às redes sociais, sabemos um pouco da vida um do outro. Foi um lindo encontro, porque parecia que fazia uma semana que não nos víamos, de tanta conversa boa. E assim tive um jantar pré prova nada solitário, e respeitando o que eu precisava e queria comer (porque ele é um querido).
Prova tarde, dá para dormir um pouco mais. Ah, não fica nervosa? fico, claro, mas saber que não preciso acordar antes das 5h dá uma relaxada, porque seria difícil perder o horário. Tinha um senão: o horário de verão começava exatamente de sábado para domingo, isso foi tenso. Tanto que pedi para a recepção do hotel me despertar, como faziam os astecas, para ter certeza de que eu não me perderia no horário.
Dia lindo de sol, uns 8 graus, e acordei com muita vontade de correr. Isso faz muita diferença, sabe? Na verdade, eu já comecei a ficar emocionada enquanto vestia a roupa. Foi bem difícil estar lá e não poder mandar mil mensagens para meu pai, e ele me responder: "bate neles, filha", as palavras de incentivo para todos os desafios. Fiz algo que não é comum, que é comer antes (abaixo explico), e tem todo esse ritual de colocar o short, o top, a camiseta (ia com a regata da assessoria mas estava realmente muito frio, fui com a camiseta da prova, porque a poliamida deles é mais quentinha - aliás, bem mais, é difícil depois usar no Brasil), manguito, meia, tênis com dois nós, todo o ritual do cabelo, golinha no pescoço e faixa nas orelhas (tudo da nossa época do mulheres que correm, quem lembra? são produtos maravilhosos que uso ainda), enfim, toda a função. Creme antibolha nos pés, antiatrito por todo o top, área do short, colocar a capa de chuva que é o corta vento e será descartada, e aí é partir.
Fui andando com a multidão, aquela vantagem que não me canso de falar - mas ainda assim, se for para escolher hotel perto da largada ou da chegada, ouça a tia, escolha perto da chegada, na largada tá todo mundo junto focado indo para o mesmo lugar com muitas indicações e meios de transporte. O que eu faria diferente: sairia dez minutos antes. Cheguei bem de horário, mas precisei fazer o último xixi. E tinha a fila básica, mesmo com muitos banheiros (todos com papel higiênico e tinha uma pia do lado de fora para lavar as mãos - dignidade). E com isso perdi minha largada, que tudo bem, era uma vantagem eu largar na onda mais cedo. Pena porque na minha largada tocou Poeira, eu ouvi da fila, dei um super grito, Veveta!!, e...ninguém gritou, nem um uhuu. Também não passei vergonha porque NINGUEM nem me olhou. Está faltando brasileiro nessa prova.
A largada é linda, porque tem a música tocando, alguém falando em alemão, mas a alegria é universal, palmas ritmadas, emocionante. E já começa passando no portão de Brandemburgo, que é incrível, e correndo de verdade, porque não é todo mundo agarrado (ainda assim, a gente sente o aroma de quem insiste em não usar desodorante. Sério, qual o problema desse povo?).
Essa é a largada, vejam que tem bastante gente, mas tenho meu espaço garantido.Pontos positivos da prova: 1) largada organizada nas ondas, sem tumulto, você larga e começa a prova correndo de verdade, no ritmo que quiser, beeeem diferente de Lisboa com todo mundo juntinho na ponte sem conseguir desenvolver.
2) percurso: é espetacular. Um city tour, mas melhor, porque é tudo dentro da cidade na parte quase central - até por ser uma cidade grande. Com isso, são avenidas largas, poucos pontos de junção de muita gente, asfalto bom, prova planíssima (porque não me venham com essa de Floripa prova plana que sobe e desce duas pontes e um viaduto). 3). Gente feliz em volta. Assistindo (uma multidão, você não corre sem plateia nem um km), torcendo, com cartazes com nomes e com palavras de incentivo - eu acho, as crianças participando com seus sinos, muitas mulheres correndo e companheiros com os filhos torcendo (mais do que o contrário, na minha observação, que coisa, né?), muita gente alta, meu Deus quanta gente alta, e bandas pelo caminho, de rock, rock alemão, muita percussão, tocada em geral por pessoas mais velhas, idosos mesmo, DJ, etc.
e essa foto cartão postal?4) chegada também organizada, você chega com muita gente mas com teu espaço para abrir braços se quiser comemorar, tudo dá certo, e vou dizer, o último km é muito, muito emocionante, tem uma multidão nas calçadas vibrando, você vê o portão de novo e sabe que é logo em seguida, e dali em diante é realmente só celebrar a chegada. 5) pós prova bem ok, tinha água mas não vi, pois estava chorando e mandando áudio para o Cesar, só vi a cerveja sem álcool, super valeu como hidratação.
Eu não vi os outros itens de pós prova, como a banana nossa de cada dia. Mas devia ter, eu que estava mais perdida do que normalmente, e queria ir embora, voltar para o hotel e tomar banho.
Tem o outro ponto positivo da prova no frio que é não suar tanto, não terminar achando que perdeu toda a água do corpo, mas tem o contraponto: esfria muito rápido o suor depois que termina. Aquela capa térmica ou mesmo a de plástico grosso é bem necessária, eu fui enrolada nela de volta para o hotel, equilibrando com mais uma cerveja sem álcool. E eu nem gosto de cerveja, mas era uma com sabor limão, era boa, ainda mais naquele momento.
Eu corri sorrindo quase todo o tempo. Estava feliz, entregando o que treinei e nem sabia. Tanto que pelo km 14, pensei: tá, dá para fazer mais força, minha filha, está muito passeio. E fiz, e foi bom demais, consegui correr como eu queria sem deixar de apreciar o caminho. Que perfeição. Mas vejam, não estava tentando performance (aquela possível no meu momento, diferente de dez anos atrás). Eu já me decepcionei algumas vezes tentando um tempo ótimo em provas enormes e emocionantes, então agora eu vou com o foco em correr feliz o que for possível. Desta vez estava sem expectativa, mas devidamente preparada para correr dignamente. Deu bom. Fiz no pace proposto pelo treinador, sem pensar nisso. Ah, tem uma linha verde/azul no chão do percurso, que, se você for por ela, dá certinha a quilometragem. Eu fui em boa parte, mas nem sempre, então para mim deu 21,250, ótimo.
ali eu ao lado a ruiva de calça colorida. postura blé, passada blé, mas sorriso onPassada a euforia intensa inicial, conhecida como loucura pós prova, que depois vira uma alegria fofa, vem o banho, durante o qual eu descobri que não foi suficiente o creme antiatrito na parte do top. Eu fiquei tão assada que precisei comprar um creme antiassadura de bunda de criança, em alemão. Na hora que vem a água quente...só quem já viveu sabe, e está se encolhendo enquanto lê.
Estou pensando em pontos negativos da prova, e não me vem nada que mereça destaque. Eu não gosto de água em copo aberto, como era lá, mas aí sou eu, e eu sei que faz mais sentido ser assim na atualidade, mas eu sou bem inapta e a água mais cai fora do que dentro da minha boca. Também achei que podia ter ainda mais lixeira, um pouco mais à frente dos postos de hidratação, porque a pessoa fica com o copinho mais um pouco e aí já não tem lixo para jogar. O povo joga embalagem de gel no chão como se não fosse nada, nem no cantinho da calçada é, acho um horror. Mas, de novo, não é culpa da organização.
Fotos: dessa vez eu comprei o pacote de fotos antes, já na inscrição. E foi a melhor coisa que eu fiz, porque sabia que alguma fotografia ia existir (de Lisboa eu não tenho NENHUMA foto). Não são centenas de fotos como no Brasil (mesmo em provas como maratona do Rio e SP City, com mais de 20 mil pessoas, tem sempre pelo menos umas 80 fotos que você de fato está), mas mais de dez, o que me pareceu ótimo. Estou linda nelas? não. Não são aquelas fotos do foco radical que a gente parece estar voando, com uma postura linda. Mas eu gostei da minha expressão no rosto em todas elas, até porque não via os fotógrafos no percurso. Acho que dei sorte porque na chegada, depois da medalha, havia alguns fotógrafos, e eu praticamente me joguei em cima de um deles para tirar foto com a medalha, exatamente no momento (vejam que as pessoas perto de mim também devem achar isso). Dá para ver que meus olhos ainda estão com lágrimas, e eu simplesmente adoro essas fotos.
Eu almocei em um lugar recomendado pelo Ricardo, especializado em Schnitzel, um prato bem típico alemão que eu adoro, e foi uma felicidade chegar lá e ter muitos corredores com suas medalhas penduradas no peito. Eu estava com a minha na bolsa, até tirei. A gente é bem bobo mesmo, bom demais.
Eu sei que é um enorme privilégio correr uma prova fora do Brasil. Sempre é. Me organizei desde que fui sorteada, mas nesse meio tempo tive muitas atividades do doutorado, o trabalho na Vara aumentou demais, mudei de treinador de corrida e de treinadora do fortalecimento/musculação, tive que treinar forte no verão senegalês que parece não ter fim, tive a oportunidade de ir apresentar um trabalho em Milão, mas com isso gastei euros preciosos, recalculei...mas eu pude fazer isso, e é com a minha autonomia financeira, com dinheiro do meu trabalho (pense nisso, mulher que me lê), e, oba, minha família próxima me apoia (eles sabem que eu iria mesmo sem isso, mas seria meio triste). Correr uma prova desse porte é uma experiência, não é um produto que se compra. Tem um custo financeiro alto, mas não é um sonho de consumo, e sim de vivência, de estar, de sentir. Exige comprometimento, além de só sonhar e economizar. Eu sei que pouca gente pode viver isso. Se puder e estiver no seu radar de sonhos, eu garanto que vale a pena, e eu valorizo muito ter realizado esse sonho que não era meu de início, mas que eu entendi e vivi como se fosse, tomada de saudade, com o coração cheio de amor.
essa é chegando
Agora o serviço, vai que ajuda a quem ainda não tem a manha - eu aprendo todas as vezes, não acho que tenho, não, só sou esforçada.
1. Alimentação: avião é dureza, né? viajar bem próximo à prova tem dessas coisas. Eu comi bem médio entre avião e Frankfurt, tinha levado barrinha de proteína e umas castanhas, não consegui uma refeição boa. No sábado em Berlim já prestei atenção nisso e almocei bem, comida, e jantei também, a boa e velha massa com ragu de carne, sem molhos cremosos, nada indigesto. Tomei minhas enzimas porque o gluten e eu sempre temos uma questão, mas eu não tinha tantas opções. Geralmente corro em jejum, porque é bem difícil para mim correr depois de comer, mas nessa situação a prova era muito tarde, falei com a Nádia nutri e ela disse para eu comer pelas 8h e pouco, porque uma coisa é correr em jejum, outra bem diferente é correr com fome, e eu estaria com fome às 10h. Comi um pão normalzinho francês com ovo mexido, não botei nem manteiga, e meu café preto da alegria. Levei um supercoffe para mais próximo a sair do hotel. Deu tudo certo. Sendo a prova mais tarde, a gente também tem mais chance do intestino dar o ar da graça. nada mais sobre o tópico.
2. Hidratação: no voo até tentei pedir mais água, mas é difícil, ainda mais no voo noturno. então na sexta tomei litros de água desde que cheguei, e sábado também. Para mim, funciona muuuuito tomar bastante água nos dois dias anteriores. Eu preciso dessa hidratação com antecedência, é mais importante do que no dia. Para a prova, eu levei duas garrafinhas com eletrólitos. Gente, não ganho nada de ninguém, não tenho patrocínio. Quando digo as marcas é porque eu gosto mesmo. Nesse caso, vou dizer o seguinte: TANTO FAZ. Acho todos a mesmíssima coisa para o fim a que se destinam. Liquidz, Jungle, Dobbro, eu tomo o que tiver, tomaria gatorade, de preferência. O que eu recomendo é ser sempre de sabores cítricos, porque tem um da liquidz , acho que de melancia (esse sabor deveria ser proibido nesses itens), que tem gosto de chiclete ploc (sorry, gen z), fica um gosto doce na boca, um horror para quem está correndo. Tem que ser limão, muito limão, abacaxi, sabores desse tipo. Não levei água, para tomar só da prova. Deu certo porque não estava calor, então eu não peguei em todos os postos, o que é um bom adianto no tempo de prova, mas isso deu certo porque eu não estava desidratada e tinha minha garrafinha com os sais. Cada vez que peguei aquele copo aberto eu fiquei toda atrapalhada.
3. Suplementação: eu tomei meu beta action de sempre no caminho para a largada, considerando que eu tinha comido às 8h15, o que normalmente não faria. Também com esse negócio aumentou a vontade de fazer xixi, mas tudo bem. Eu não sei o que me deu, mas na hora de escolher o gel, eu peguei o da Pace it, que tinha experimentado apenas alguns sabores, e que o pessoal está gostando bastante, olhei bem, e pensei: não conheço bem esse, vou levar um só e os outros dois da GU (aqueles que comprei na expo, e que conheço muito bem). Ainda bem. Esse da Pace it, no frio, ou seja, sem aquecer no bolso, ficou com uma consistência muito esquisita, parecia uma gelatina que deu errado, foi bem ruim de tomar. Foi o primeiro, aos 6,5km, mais ou menos. O segundo já foi um GU com cafeína, pelo 13km, e o último, nos 18km, sem cafeína. Eu tomo esses 3, já tentei tomar só dois e nos dois últimos km me dá uma baixada de energia, bem quando eu mais preciso. Então paciência, tomo um gel para 3km finais. Com cafeína só o do meio, porque eu já tomo cafeína antes da prova. Todos com sódio, mas menos do que precisamos no Brasil no calor. Dito isso, vou voltar a comprar gel da Mombora, porque eu prefiro os mais limpos, e me dei bem com esse. (mombora, me patrocina, obrigada). Logo que voltei para o hotel, o que ainda levou quase uma hora, eu tinha tomado a cerveja Erdinger sem álcool, parabéns para mim hahahaha, e tomei um whey que levei de casa, que acho bem importante, já que não tinha o que comer até o almoço. Eu atualmente sinto pouca fome depois de correr, às vezes fico até enjoada, tenho que fazer um esforço, por isso primeiro tomo o whey, se for em casa faço um shake com morango, whey, iogurte ou bebida vegetal. Na emergência, é o whey que salva. Muito fácil dizer que é para comer comida, e eu prefiro, mas num lugar assim, comida poderia até me dar um revertério, eu fico com o intestino esquisito. Até água de coco me dá dor de barriga, e estranhamente isotônico industrializado, não. Pois é. Que triste.
4. Roupa e tênis: o top foi da Nike, o tradicional swoosh que dá certo, mas tem vezes que assa. Foi o caso. Estou com a pele mais sensível também (mais uma cortesia da menopausa) e depois de mais de uma hora correndo, todos me assam de alguma forma, tenho que me lambuzar de creme mesmo. O short dessa vez foi da La Vie, um que não tem costura no meio e pouca costura na lateral. é feito para usar sem calcinha, mas não é meu caso. Só que realmente ele não me assa no meio das pernas, perto da virilha. Eu amo Vivian Bogus, todos sabem, mas com essa sensibilidade epidérmica que tenho tido, preciso de menos costura, especialmente em áreas mais sensíveis, e mesmo na perna, estava ficando com alguns machucados onde tem costura. Então para distâncias maiores, mudei. Tem bolsos também, em menor quantidade (não daria para uma maratona para mim), e é super confortável. Manguito para baixar durante a prova, no caso dessa, foi lá pelo 12km. Eu não senti meus pés pelos primeiros 4km, de frio mesmo. Mas não mudaria a meia, porque morro de medo de ter o pé cortado, isso dói demais durante uma prova e pode prejudicar de verdade. Não usei meia de compressão na prova, tinha usado na viagem de avião. Usei uma meia de marca boa, a CEP, e esse é um investimento que dói fazer, mas é necessário. Dói porque afinal são meias, mas também porque aqui em casa o duende adora separar os pares. Muita gente correu de calça, eu não consigo. Tênis foi a perfeição da vida, o Evo SL da Adidas, ele é bom mesmo. O único defeito, que é derrapar quando tem areia na pista, ou o piso está molhado, resolveram com a versão ATR, que sim, comprei na expo (mas não usei no dia da prova, que tinha sol e não testaria na prova). Fui com as luvas, e tirei de uma mão no km 2 e da outra só no 5km, guardando no bolsinho. Faixa na cabeça e boné por cima, para o caso de ter vento - tinha em algumas partes - e porque decidi não ir de óculos de sol, então o boné ou viseira era fundamental. Comprei o boné da prova, super fresquinho e de um azul lindo (vde fotos).
5. Locomoção: era fácil ir para a largada, porque era num lugar acessível, turístico. Nem sempre é assim, como em Lisboa, com trem para o outro lado do rio, e em Boston, que larga em outra cidade, tem o deslocamento para lá. Eu fui a pé mas sei que era tranquilo ir de transporte público, liberado para corredores o dia todo, com o número. A chegada é praticamente no mesmo lugar, o que eu acho ótimo. Se eu não tivesse próximo, teria pego guarda volumes, mas atenção, geralmente já tem que ter comprado antes, não dá para comprar na expo, por exemplo. Eu já sabia disso e desde o início procurei hoteis próximos. O que eu fiquei era o NH Collection Berlin Mitte (que é a região), e recomendo muito. Além da localização sensacional, com metrô ao lado e ponto de tram na frente, ainda está perto dos lugares turísticos para quem gosta de andar, o quarto é muito bom, de tamanho ótimo, tem máquina da nespresso e o atendimento ótimo. Paguei por ele e não foi barato, estou falando porque gostei de verdade, foi indicação do Ricardo.

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