Eu, meu pai e a corrida

Já falei antes que não há tradição de prática de esportes na minha família. Nem falo de atletas, isso é algo impensável, mas mesmo atividades físicas não são exatamente prioridade para a maioria dos meus familiares.
Meus primos que moram no Rio sempre nadaram e alguns jogavam futebol. E tem um que faz windsurf. Meu irmão esporadicamente luta kung fu e faz tai chi. E é isso.
Eu fiz ballet para ter uma boa postura, e natação porque sou de Florianopolis, tinha que saber nadar e pela qualidade da respiração da natação. Ou seja, o objetivo não era manter a forma, muito menos competir. Aliás, eu saí da natação quando meus ombros ficaram muito largos na adolescência...
Isso explica a surpresa dos meus genitores e de todos os meus tios quando eu comecei a levar a sério a corrida. Tem gente que até hoje acha muito engraçado (sqn, como diz a juventude).
Minha amiga Vanessa tem o pai que corre. E corre muito. Acho o máximo, e sei que ela também acha, e valoriza à beça as corridas que eles fazem juntos. É um momento pai e filha inesquecível. 
Com o meu pai foi um processo muito interessante o de aproximação do mundo da corrida. Ele não tinha muita noção das corridas de rua, provas de corrida, etc. Na verdade ele não tinha noção nenhuma. Então nas primeiras provas ele só sabia por alto, achava 5km um monte, uma coisa meio Caetano, "correr do que, correr pra que?".
Ele é intelectual. Mega intelectual. Tem pós-doutorado, é muito respeitado no meio universitário, autor de vários livros, foi professor de muuuuita gente, super top  master blaster CDF. É uma baita responsabilidade ser filha dele.
Tenho a recordação de meu pai andar de bicicleta comigo quando eu era criança. Na praia, passeávamos bastante, ele numa barra circular, com o selim do Botafogo (sim, sim). Eu tinha caloi ceci, como todo mundo. Naquela época ele entrava no mar e dava umas braçadas, sem técnica, mas o suficiente para se virar e ficar comigo. Hoje em dia meu pai faz caminhadas, e já fico feliz.
Uma tarde meu pai foi lá em casa, estávamos só nós dois, ele viu os troféus e começou a fazer perguntas. Meu pai sempre se interessou por mim e por aquilo eu faço, pelas coisas e pessoas que me fazem bem. E ele é um interessado genuníno, ouve a resposta à pergunta com atenção, e depois vai se informar mais, se necessário.
Nesse dia, coitado, eu saquei minhas medalhas e fui contando a história de todas elas, como foi a corrida, como me senti, a alegria da superação, da conquista, como é difícil ganhar um troféu, e falei da importância dos treinos para poder fazer uma boa prova, para a gente melhorar. Foi aí que caiu a ficha, e ele viu como a corrida é importante para mim e para a minha felicidade. 
Dali em diante tudo mudou. Ele é um super incentivador, sempre perguntando sobre as minhas provas, passou a se interessar pelo assunto, ouve até um programa na CBN sobre corrida, depois vem conversar, quer saber dos meus tempos, qual é a próxima. Isso me deixou muito feliz, porque é mais uma coisa que posso compartilhar com o meu pai.
 A verdade é que depois de adultos, temos que ter interesses a compartilhar com o pai da gente, porque ainda não chegou minha vez de cuidar dele, e ele não precisa mais cuidar de mim. Sendo amigos, nos mantemos unidos. 
Agora só falta ele estar em alguma chegada de prova me esperando, ou estar comigo em alguma viagem para correr. Quem sabe? Há planos...
Na minha casa, o Arthur tem um pai que agora também corre, ele acha legal os pais correrem. E ele sabe que o papai vai ensinar a andar de bibcleta direitinho, vai jogar futebol e todas aquelas coisas legais que  os papais fazem bem melhor do que as mamães. Esses pais que me cercam não têm preço...Boa semana.

Comentários

  1. Andrea, adorei seu texto(mais uma vez). Escreve com emoção e valorizo demais isso. Conheço seu pai, de entrevistas, de livros na estante da biblioteca, dea universidade e posso dizer que consegui imaginar a cena ele sentado contigo ouvindo suas histórias e impressões da corrida. Achei o máximo quando falaste que ele escuta o programa de corrida na CBN. Mostra o amor pela filha. Parabéns pela sua relação em família. Ter isso é um tesouro.
    super beijo
    Helena
    Blog Correndo de bem com a vida
    @Correndodebem

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