O dia em que usei amarelo

Quem me conhece um pouco sabe que não uso amarelo. Fico estranha, na verdade amarela mesmo, acho que por causa do meu cabelo, sei lá. Não curto. Então, a expressão "amarelar", para mim, ainda carrega uma conotação ligada à cor propriamente dita. 
Pois no sábado aconteceu. Amarelei. Fiquei em dúvida sobre escrever sobre meu fiasco ou não, mas cheguei à conclusão de que devo compartilhar também as experiências mal sucedidas (ou, no caso, não sucedidas), porque senão parece a vida do facebook de beleza, sucesso, alegria permanentes, e isso, nós sabemos, não existe.
E foi assim: mais uma vez, me inscrevi em uma travessia, agora em Meia Praia, ao lado de Itapema, achando que ia ser uma boa. Paguei, confirmei, e montei o esquema familiar, conseguindo uma carona para ir. até lá.  
Fui até lá, peguei o kit (e a camiseta, regata, é fofa), me arrumei, andei até o ponto da largada...e fugi. Não larguei. 
Voltei andando, e depois correndo (não pela fuga, mas para agilizar, juro), para o local da chegada, peguei minhas coisas, botei o biquini, assisti à chegada dos primeiros colocados, e fui embora. Assim mesmo. Sério? Sério. Como?
Eu confesso que sempre tenho um pé atrás com os horários das largadas das travessias, acho muito tarde. A partir das nove da manhã o mar já começa a movimentar mais, largar nove e meia para que? Fora que já tem mais gente na praia, e, consequentemente, no mar.
Quando cheguei, olhei o mar e achei ele meio crespinho. Não curto. Gosto de estilo lagoa mesmo, confesso. Meu histórico de praia: fui criada no mar calmo, calmíssimo, da praia da Daniela. Não fui acostumada a furar ondas para chegar no fundo, pegar jacaré para voltar para a areia, e minha mãe entrava em pânico quando eu queria entrar no mar de Ipanema, por exemplo, de maneira que eu basicamente me molhava na beirada e voltava para minha canga. Praia Mole? linda de olhar. Joaquina? gelada demais, e eu só entrava quando estava com marolinhas. Basicamente uma cagona.
E a natação nisso tudo? Aprendi a nadar na piscina, igual a todo mundo, e não fui estimulada a nadar no mar como esporte. A ideia era não me afogar no mar, e realmente isso dificilmente aconteceria, especialmente no curto período de tempo que eu passava em mares mais agitados. Meus treinos de natação eram na piscina, e participar de competição não era exatamente estimulado pela família. No mar, eu nadava quando caía do caiaque, quando virávamos um bote emprestado, eu e meus primos, quando precisava ir rapidamente para o fundo encontrar alguém, e só. Nunca surfei, e minha relação com o mar sempre foi de muito respeito.
Voltando ao amarelo, eu olhei aquele mar e comecei a ficar tensa. Vi várias bandeiras vermelhas ao longo da orla, e a organização da travessia informando que a largada seria 1500 metros à frente, quase em Itapema, e o trajeto, uma linha reta no fundo. "Hum, eles também acham que a rebentação não está boa, e que tem correnteza, senão seria um triângulo", pensei eu.
Para completar, perto do momento da largada o organizador, com seu megafone, começou a dar instruções de como entrar na agua, qual lado, por qual lado sair, os cuidados a tomar, e eu pensando:"o que mesmo estou fazendo aqui?". Cheguei a ficar enjoada do estômago, do medo que me deu. Mais do que o medo de não conseguir nem chegar no fundo e na primeira boia para começar a nadar de verdade, o medo de depois ficar travada pensando na chegada. E o medo de voltar de caiaque? já tive sonhos horríveis com isso.
Mas não é só. A natação sempre foi meu lazer, meu relaxamento, minha leveza. Sempre busquei ter uma técnica razoável, uma velocidade decente, mas nada de preocupação com técnicas de performance.
E me vi, ali com aqueles nadadores excelentes que participam de travessias, e me peguei não querendo fazer feio...tsc tsc para mim. 
Meu pensamento é achar que vou ser a ultima!  E daí se eu for? Eles são todos melhores do que eu, realmente. Mas se a ideia é treinar no mar, me divertir, e me acostumar com a muvuca de natação para me preparar para provas de triathlon, qual o problema em ser lenta e não fazer um bom tempo final? 
Não tem nenhum problema. E é isso que fico repetindo para mim mesma, sem nenhum sucesso até agora. 
Na hora mesmo só pensava que não e para mim, que meu negócio é me manter na minha zona de conforto, que é a corrida, mesmo quando não é boa.
Descobri, nessa minha, digamos, desistência, que preciso treinar várias coisas, mas, especialmente, minha mente. Fui traída por ela.  Eu obviamente consigo nadar 1500 metros, considerando que nas aulas faço 1800, no minimo. Treinei o mês de janeiro todo, ainda que na Daniela, quase todos os dias, indo muuuito para o fundo, e inclusive em dias de correnteza mais forte, justamente para ficar mais segura. Mas a ideia da competição, e de me sair muito mal, me abalou, o que, juntando com o medo da rebentação e do mar em si, acabaram com qualquer chance de nadar naquele dia lindo de sol.
Em resumo, eu não soube brincar também na natação, e isso me entristeceu. Fiquei pensando que treino por treino posso fazer na Daniela mesmo, sem gastar dinheiro com inscrição. E que para melhorar técnica só na aula mesmo.
E é o que farei. Não sei ainda para que, se pretendo ser mais competitiva também na natação (ai, que chata, né?), ou se apenas quero ter certeza de que farei sempre o meu  melhor nessas travessias. E, finalmente, se eu voltar a me inscrever, não tenho nenhuma razão para fazê-lo em provas de mar mais agitado, já que em provas de triathlon o mar geralmente é calmo, até porque a largada é super cedo. 
Meu objetivo é perder a aflição de nadar no meio de um monte de gente me empurrando, jogando água, e não me cansar demais nas largadas, pulando ondas e correndo como foca atrapalhada até começar a nadar. Geralmente eu já começo a nadar sem fôlego, e pelo nervosismo de ser uma prova, começo mal, e só vou relaxar depois de uns 500m, quando a respiração encaixa, e os movimentos também. 
Claro que fiquei frustrada com o que aconteceu, e me senti meio idiota pagando a inscrição, fora o mico.
Como tudo, é um aprendizado. Vou ver o que consigo extrair disso e como posso melhorar. Mas até lá, o negócio é melhorar a técnica e manter a competitividade na corrida, nem que para isso eu não me inscreva em travessias...ate aprender. E enquanto isso, treinar o resto. Boa semana de treinos!!




Comentários

  1. Andrea, legal você compartilhar sua frustração. Em breve vai ser diferente, você vai ver.

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  2. Gostei do Hamburguer... control "C" Control "V", já tenho ela na mão. Olha professora, dias melhores de competição virão.

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    1. Oi, Cris!! Que bom, faz e me conta. Vou postar outra receitinha esta semana. bjs

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  3. Você pode usar amarelo quantas vezes quiser, ainda assim continua linda e vencedora! Se não houvessem derrotas, as vitórias seriam baratas! ;-)

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  4. rsrs...já passei por esta experiência...pior ainda, larguei e fui até a metade. A outra metade, porém, parecia infinita e o mar cada vez pior.
    Beijo, Carol

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    1. Voltasse de caiaque? ai que dor no coração!!! Então me entende...só sobra treinar. bjs

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