E tem dias em que o sorriso sai só no final...Corrida de Páscoa

Esqueçam o que escrevi no último post sobre correr com alegria. Brincadeira. Tive um dia ruim. Fazia tempo que não me sentia dessa forma. Decidi escrever o post antes de ter digerido bem a Corrida de Páscoa de Mariscal, para compartilhar adequadamente meus conturbados sentimentos.
Ué, mas não saiu trofeu? Sim, saiu. Segundo lugar na categoria. Categoria de 10 anos, e não de 5. Se for olhar, foi melhor do que em São José. A menina que ficou em primeiro é a que, no ano passado, estava no pódio geral. Então, concluímos eu e ela que, embora a prova tenha crescido pouco em número de participantes, o nível subiu, em geral.
Ok, a prova tem a proposta de ser simples, e for fun, uma confraternização no sábado de Aleluia, atrai os locais (tinha uma equipe grande de Bombinhas) e turistas que já conhecem a região (paranaenses na maioria). Não é para ser mega profissional. Espero que não, porque aí fracassou de forma retumbante.
A simplicidade permite que a gente pegue o número no dia da prova, assim como a camiseta (sem tamanho para escolher), o que facilita sendo de outro lugar, e no caso específico, a chuva do dia anterior. O número é retornável, o que eu considero louvável, e possível em provas menores mesmo. Minha amiga que gosta de guardar o número das provas como recordação vai discordar...kkkk. Mas sério, acho ecológico. Ainda mais porque era prova sem chip. Então, a medalha e o cômputo do tempo eram unicamente com a devolução do número de peito (ou barriga).
Amanheceu um dia espetacular, assim como em São José. Céu azul, e um sol delicioso. Masss, não era um solzinho de outono, ar fresquinho, não. Era sol de queimar o coco, de passar o dia na praia. Esse sol.
Largada marcada para às 9h, algo que funciona só quando já está mais fresquinho. Sim, em  muitos anos na Páscoa o clima está mais ameno, mas não quando a Páscoa é em março, como no caso.
Na largada não tem nem pórtico, é todo mundo junto esperando mais ou menos na mesma linha, e aí a gente sai correndo, se atropelando.
Atrasou a largada. Mais de vinte minutos. Não pode, sorry. Largada às 9h20min debaixo de solão?
Disseram no microfone que a largada dos 5km seria primeiro, e 3 minutos depois a dos 10km. Então, só o povo dos 5km foi para a largada. Opa, não, vamos lá, pessoal, na verdade vão largar todos juntos. Corre para a largada.
Não tendo chip, não tem tempo líquido, então a largada fica bem mais tumultuada. Embora parecesse pouca gente (não consigo descobrir quantos inscritos, o resultado não está em lugar algum), pelas ruas de Mariscal, até Canto Grande, ficou bem apertado.
Como choveu na sexta-feira Santa até parecer que o novo dilúvio chegaria, as ruas de calçamento e chão batido viraram ruas de lama e poças enormes. Depois da Ponta do Papagaio e o mangue, eu estou relaxada, já melequei o tênis de prova, então não tentei desviar, mas ainda assim, ficou bem tumultuado e o espaço reduz.
Nas ruas, não tinha sombra. Nada. Sabe quando você vai pertinho do muro para ver se faz uma sombrinha? era assim.
Eu larguei relativamente forte, estimulada pelo povo e porque queria sair daquela confusão. E de preferência chegar logo na praia, meu território. Mas todo mundo teve a mesma ideia, então ficou bem difícil de ultrapassar, porque mesmo os mais lentos largaram na frente e tentaram apurar o passo para não ser atropelados.
A parte na rua foi dura, vi que não estava bem. Embora tenha ultrapassado muita gente que largou na frente e quebrou antes, eu  percebi que manter o ritmo estava bem difícil, mas pensava que chegaria à praia e tudo mudaria.  
No km 5, entra na praia em Canto Grande, para correr a praia toda, ou seja, em tese mais 5km. Neste ponto havia um posto de hidratação com água. Peguei dois copos, um para beber e outro para jogar.
Nesta prova fiz uma coisa que não costumo fazer, e não farei novamente: confiei na hidratação da organização. 
Lendo novamente o regulamento, percebi que não há qualquer referência a postos de hidratação no percurso, então a culpa também foi minha. Mas a inscrição não foi gratuita, nem a preço simbólico. Na verdade, você espera que tenha água. E só tinha esse posto de hidratação.
Não é que acabou, não. A organização da prova não disponibilizou água em mais nenhum local do trajeto. Em um dia de sol, marcando 30°! Ainda que a previsão original fosse de temperatura amena, tem que adequar!
Pensando depois, eu concluo que no km5 eu já estava desidratada, o que é uma porcaria. Em provas de 10km, depois que me adaptei à vida paleo, eu tomo pequenos goles de água ao longo do percurso, no máximo duas vezes, porque em treinos de 10km eu muitas vezes nem tomo nada, se eu tiver tomado bastante água nas horas anteriores.  Mas naquele calor, transpirando desde às 8h, e sem querer tomar muita água antes da largada (o probleminha do xixi básico), acho que no km 4 já deveria ter tomado uns goles. Azar o meu.
Contudo, todavia, entretanto, percebi que não era a única a sofrer. E então sofri, meu povo. Na praia o vento estava contrário a mim, a favor apenas do meu cabelo. Um belo vento, aliás, mas isso faz parte de correr na praia. Só que ainda assim eu continuava achando calor, e comecei a ter aqueles calafrios que arrepiam os pelinhos do braço, sabem? a pressão começa a oscilar, e começa a faltar tudo, inclusive serenidade para conseguir captar exatamente o que se passa. Minha cabeça começou a jogar contra. 
Eu quebrei, é verdade, mas estava me sentindo mal também, então eram as pernas desobedientes, os glúteos doendo, os arrepios, e a sede, tudo junto. Ficava pensando que deveria ter levado minha garrafinha, ficou no carro propositadamente! 
Li o post da Fabiana Leal sobre o ultratrail rota das águas no face, e ela fala do treino da mente, algo que o Daniel Oliveira, da Wellness,  é expert com os alunos e consigo mesmo. E foi isso que me faltou, minha cabeça fraquejou, de maneira que meu corpo, que não estava dos melhores, empacou. Parabéns para quem já está evoluído como eles, eu chego lá.
Comecei a pensar que eu não terminaria. Que não queria fazer fiasco tão grande, que seria uma vergonha, e que pela primeira vez na vida eu ia desistir da prova antes de terminar, e não ter a medalha. Não vou mentir, acho que já pensei isso em umas duas outras provas, mas não levei adiante a ideia imbecil. Porque é imbecil mesmo, eu acho. A não ser que realmente você passe muito mal, fisicamente, torça o pé, ou seja, algo físico te impeça de continuar correndo, terminar a prova é o básico. Isso Everton sempre me falou também. Está ruim? vai para terminar.
Na hora eu não achei isso. Tive que caminhar umas três vezes, e no km7 eu pensava: não consigo correr mais 3km.
Só que não tinha muito para onde ir. Tinha que correr até o  final da praia, fazer um retorno e correr mais um pouco de volta, passar a ponte e chegar. E essa corrida de volta na praia era curta, de maneira que  não era muito esperto correr 8,5km e desistir. 
Então passei a fazer aquele exercício mental que funciona para mim: só mais um km. E de um em um, fui chegando. Também notei que quando eu corria, mesmo num pace medíocre, ultrapassava várias meninas, que me passavam de volta quando eu caminhava, porque elas continuavam correndo, embora mais devagar do que eu. Ou seja, eu só tinha que correr. E isso me mostrava que estava ruim para mais gente, que, diferentemente de mim, não estava desistindo. Ponto para elas. 
E pensei, sim, que o Arthur ia estar me esperando, como ele faz, e chegar comigo. Não tinha certeza, mas e se ele estivesse e eu não viesse para a chegada, e sim desistindo? Mãe tem um nome a zelar. Como explicar para ele que eu tinha decidido não terminar só porque percebi que não ia "ganhar"? Como depois dizer para ele que o importante é competir, participar, e terminar? É o que eu digo nas provas grandes, em que a colocação importa ainda menos: a gente corre porque é bom, porque faz a gente feliz, e participar da prova é uma celebração, e não uma obrigação de ganhar nada. Ser mãe tem dessas coisas, dar o exemplo,  para o bem e...para o bem. 
Quando fiz o retorno na praia e vi que faltava pouco mesmo, consegui dar uma apurada, e como no ano passado, não davam 10km, davam uns 9,5km, e na pontezinha já vi o Arthur, descalço, compenetrado como de costume, esperando para disparar, já que, diferente de mim, ele não tinha corrido mais de 9km. E ele veio, e aí tudo melhorou, chegamos juntos e até sorrindo. 
Eu tive que sentar depois. Nunca sento, estava bem ruinzinha. No final havia bastante água, melancia, banana e até isotônico. Mas isso não me faz perdoar não ter posto de hidratação na prova. Vi muita gente reclamando, inclusive do horário de largada.
Na chegada tinha pórtico, e eles anunciavam o tempo bruto, no meu deram 54' e alguma coisa, mas não consigo saber oficialmente, e confesso que não prestei atenção. A prova foi sábado, já deveriam ter publicado em algum lugar o resultado.
Ahhh, polêmica: o primeiro colocado dos 5km até o funil (vamos considerar funil uns  15 metros) foi ultrapassado nesse pequeno trajeto. E aí? vale? não tinha nada no regulamento, então valeu. O clima estava meio estranho no pódio, mas o que acabou em segundo lugar parecia bem contente, vi que a assessoria dele é que estava mais chateada. Eu tenho por hábito não ultrapassar no funil, e várias provas proíbem isso. 
Mas já fui ultrapassada, e já perdi pódio por não ter ultrapassado. Acho que é bem individual. Atualmente, depende da prova, de quem está do lado...aiaiaiai.
O aprendizado é, mais uma vez, não permitir que tua mente te traia, te pregue peças, te faça cair em armadilhas. Corredor tem dia bom e dia ruim, mas tem que saber conduzir a prova em um dia ruim, e ir ao seu limite naquela condição. No final das contas, acho que ainda consegui me superar, e se não tivesse concluído, ficaria furiosa comigo mesma por muito tempo. Fora de cogitação. Eu queria ir embora logo que acabou, mas Péricles disse que não tinham chegado tantas mulheres assim antes de mim. O que mostra que eu estava errada até na percepção da dificuldade e do tamanho do fiasco.
Trabalhar a cabeça serve tanto para prova quanto para começar a correr, participar da primeira prova, aumentar a distância, em treino ou em competição, ou seja, para qualquer novidade que você pretenda para seu corpo. Vamos pensar mais nisso.
Respondeu ao questionário do perfil da corredora? A chata aqui está esperando...eu ia encerrar no domingo de Páscoa, mas a Daia Gamboa começou a divulgar ontem, então vou deixar até amanhã, no máximo quinta. Estou muito ansiosa para compartilhar os resultados, li coisas incríveis, e já aprendi muito. 
O próximo passo? tcham tcham tcham tcham!!! 
Vamos marcar um encontro, que espero que seja grande, para celebrar a importância da corrida para nós, mulheres, e o aumento de mulheres no universo da corrida.
Antes dele ocorrer, espero poder compartilhar histórias de corredoras...Contarei logo, logo.
Boa semana, bons treinos!





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