Observação de uma maratona


Teve maratona de Floripa (a outra) no domingo. Eu estava inscrita para meia maratona, mas tinha na planilha 32km para fazer, e meu plano era de correr 21km + 11km, mas faltou combinar com a chefia, que, me conhecendo, sabia que eu ia aproveitar a meia maratona do meu jeito, que é tentando fazer o melhor. E não era essa a ideia. A meta é outra, o foco tem que ser outro. Então a sugestão foi largar com o pessoal da maratona, fazer os primeiros 28km com eles, quando então eu passaria pelo pórtico largada/chegada, e depois mais 2km para frente e volta, chegando com o pessoal da meia maratona como se não fosse nada.
Bom, paguei a inscrição, nisso não vi problema. Mas é duro você entrar numa prova sabendo com certeza que não vai terminá-la... Tinha que encarar isso e o fato de que provavelmente faria um bom tempo na meia maratona se fosse nela, e no treino o pace era uma incógnita para quem nunca tinha corrido tal distância. E era treino. De luxo, mas treino. Esquece a prova.
Difícil foi logo que ele falou.
Mas depois que incorporei, comecei a já pensar diferente. Em aproveitar o percurso, que seria bem diferente, porque a parte final é que era na beira mar direção UFSC, exatamente onde sempre corro em Floripa.
Bom, me preparei psicologicamente, e acordei cedão para encontrar o pessoal. Tinha até uma resposta caso me dissessem que a largada da meia era mais tarde: não consegui trocar a inscrição. Mas como o mundo não gira ao meu redor, não fui sequer notada.

Adoro quando o fotógrafo sai na foto. 

Gente, que energia a largada! É totalmente diferente das outras distâncias. Existe algo que liga todo mundo que está ali, muito louco. Eu tive a oportunidade única de poder observar a largada, os corredores, as expressões, no meio do povo, porque não estava fazendo a prova, e usei até ferramentas de força mental para longa distância, sendo realmente plateia.
Aquela largada para a morte, de 5km e 10km, é substituída por uma corrida alegre e cheia de conversa, com poucos ultrapassando desesperadamente. Ouvi gente falando: esses segundos de demora da largada temos 42km para recuperar. 
Na largada era meio noite ainda. Com uma lua cheia abençoando os malucos da vez que foram celebrar todos os meses de preparação. Essa lua acompanhou o início do percurso, na ponte, algo incrível e que não tem foto que consiga mostrar. Fiquei arrepiada, abismada olhando. Percebi que tinha gente que nem notava, pelo nervosismo, ansiedade, ou só foco mesmo.
Eu comecei a observar. A beiramar norte é larga, mas como sempre, havia as muralhas: amiguchas correndo juntas, uma ao lado da outra, e é difícil passar por elas, que  largam bem na frente, e correm bem devagar. 
Quando a gente fala de democracia na corrida, é ali que a gente vê com mais intensidade.
Eu tinha a ideia de que maratonista é magricelo, canela fina, short curto, ar blasé ou sangue nos olhos. Felizmente estava errada. Tem de tudo. Tem alto, baixo, magricelo, gordinho, peso normal, jovens, adultos, mais idade, muitos com mais de 50 anos, certamente. Corredores roots, de short curto e camiseta de outra prova, tênis desconhecido surrado, meia invisível, e nenhum item de suplementação à vista, confiando na organização da prova. No máximo um boné de outra prova também. 
Tem nutella feito eu, de meia de compressão, tênis estudado para o momento, garrafinhas, geis, short compressão, fone de ouvido...tem os de cinto de hidratação, mas também os de mochila de hidratação...vi um cara com as hastes dos óculos escuros  pregadas atrás da orelha com esparadrapo, outros sem óculos escuros.
Vi um grupo de meninas que parecia, desculpem, um bloquinho de carnaval. A roupa era igual, a meia também, os tênis também mesma cor, cabelo, tudo igualzinho, era bem confuso. Fico pensando que tem que ser um tênis que dê certo em vários pés diferentes...
Cabelos de todo jeito, e enquanto as meninas ficam se esforçando para conseguir prender tudo, passou um cara de cabelo comprido solto por mim, fiquei imaginando aquilo tudo grudando no corpo. Tinha sainha, shortinho, calça...gente com frio, correndo de casaco, luvas, cortavento, capa de plastico para jogar fora depois, e outros, bom, de short e camiseta. 
Passei por um cara cantando a música do fone dele, alto.
Iniciantes na distância, com sua expressão de estreia, e o nervosismo de fazer tudo certo, e veteranos, que pegam os copos de água com uma agilidade e tomam com uma destreza de dar inveja. Vi gel, gente que não toma água, só bochecha, outros que jogam no corpo, mesmo naquele frio.
O staff da água, aliás,  era muito gentil, iam incentivando.



Sei que houve problemas nas outras distâncias, mas na maratona, no que corri, o percurso estava bem marcado, com muitos tapetes de leitura de chip pelo caminho.
Como sempre, pouca gente nas ruas, só na beiramar mesmo que havia plateia. Passar por Coqueiros e Estreito, bairros do continente, num domingo de manhã antes do horário da missa...cidade deserta, só latidos de cachorros eram ouvidos. 
Correr na ponte continua sendo algo inesquecível, imagina nas duas! Para voltar para a ilha, teve até uma rampinha. A prova não é plana, não se iludam. As duas pontes têm forte inclinação, os elevados são bem chatinhos, e a subida para o túnel é falso plano. Nada assustador, mas a pessoa tem que saber o que a espera. 
Vários corredores já começaram a prova tirando fotos, sozinhos, de todo o grupo, numa prova altamente lúdica, evidentemente.
Teve um casal que correu de mãos dadas por pelo menos dois km, mãos entrelaçadas, só de olhar me deu aflição, cheguei a observar se um deles não era deficiente visual. Não. Era amor, ou sei lá o nome que se dê a isso, eu não conseguiria. 
E os fotógrafos? ah, os fotógrafos. Não estavam por todo o percurso que eu estive, mas no túnel, ponte, estrategicamente colocados, e na beiramar aos montes. Só que lá já era km 28, já tinha gente bem acabada.
Isso me chamou a atenção também. Tinha gente morrendo no km 20, ou seja, não tinha passado nem metade da prova, e dizem que é depois do 30, ou do 35km, que o bicho pega, então fiquei pensando que essas pessoas teriam que tirar as forças sei lá de onde.
Cãimbras, pessoas com cãimbras também vi, mas já mais depois de metade do percurso. Muita gente caminhando desde o km 19, 20... mas eu percebi que para alguns isso era o planejado.
O legal de fazer um percurso de vai e volta é que você vê quem corre mais rápido do que você (que era muita gente) passando, com a cara de competição, de vontade, de gana. Também tem gente que parece que nem está fazendo força, pleno, plena, as pernas indo num movimento tão natural...
E vê os que estão mais devagar quando volta e eles estão indo, alguns com a mesma plenitude, ar de  certeza de que queriam estar ali.
Aliás, o que mais vi foi alegria, motivação entre pessoas que se cruzavam no percurso. 
E  chamou a atenção que  as pessoas mais velhas, e que correm há mais tempo, transmitiam a segurança que só quem se conhece como corredor tem. Corriam em um ritmo que parecia ensaiado, muitos com sofrência consciente, buscando recorde pessoal ou só completar sua centésima oitava maratona, sei lá. 
Como eu parei no 32, tive o privilégio de ver muitas chegadas emocionantes, e vitórias pessoais, outros apenas comemorando finalizar. Sozinhos, com família, com equipe, sendo buscados por amigos, muito lindo. 
Meu treino? Foi ótimo, adorei, aproveitei e nem vi o tempo passar, fui super bem, só corri, tomei água do copinho da prova, aleluia, sem me atrapalhar, e minha única sequela foram as assaduras perto do top, que realmente foram imensas.
Aprendi muito com essa experiência. Fiquei impressionada com a diversidade de corredores em uma maratona. Embora eu saiba pelas estatísticas que poucos corredores fazem maratona, no domingo não foi a impressão que eu tive. Meu sentimento foi de mundão, de todos estarem em uma grande festa,
super democrática, e de que era uma multidão naquele caminho.
Agora que senti isso, qual o próximo passo? Conto no próximo para quem não adivinhou ainda...




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