Maratona de Buenos Aires: corri!

Vai ficar um post longo, mas não quero dividir em dois, já estou na saga faz tempo...
Então vamos dividir entre o extraprova, e a prova em si.
Extraprova é como eu me preparei para ter tranquilidade mental e física para correr o que eu tinha treinado para correr. É a logística.
Quando me inscrevi, estava no meio da organização para ir para Roma para o curso que não tinha nada a ver com corrida, mas eu me conheço, e sabia que não podia deixar para a volta para ver as coisas. Assim, fui olhar hospedagem e as passagens. Passagens eu olhava todos os dias, até que o Péricles encontrou um preço bem bom e compramos. Sem bagagem despachada. Depois paguei. Caro, mas não tinha opção.
O Hotel eu comecei a olhar, a Simone e a Ana já tinham reservado, e aí eu me lembrei do perrengue que foi quando fomos correr a meia maratona de Buenos Aires.  Deu tudo certo, mas com incomodação desnecessária. (https://vidaeumacorrida.blogspot.com/2012/09/viva-la-republica-argentina-simmmm.html)
Eu não queria ficar de novo tensa por conta de taxi ou uber para a largada, motoristas que não sabiam quais ruas estariam fechadas, muito menos depois da prova, não conseguir ir embora, especialmente porque não era uma meia, e sim uma maratona inteira, primeira da vida. Do jeito que sou, ia pensar nisso já durante a prova. Fora a questão café da manhã, boa cama, proximidade. Então, contratei pela Kamel o hotel. Podia ser com inscrição, mas eu já tinha feito. Eram duas opções de hotel, ambos em Palermo, região que eu nunca tinha ficado, e escolhi o mais barato, que pelas fotos e avaliações pareceu bom. Não era super baratinho, mas o preço era justo considerando que teria transfer para largada e retorno e café da manhã garantido. Melhor: eu na ida, e eu, Péricles e Arthur na volta então eles podiam ir tranquilos para a chegada e voltaríamos juntos sem estresse.  
Fomos na sexta feira, para ter o sábado tranquilo, sem correrias. Minha ideia era ir buscar o kit direto do aeroporto, mas o local de entrega era totalmente desconhecido dos taxistas. Tivemos que ir até o hotel, e lá o recepcionista disse que levaríamos uma hora para chegar no local, então já não daria tempo. Eu confesso que não fiquei muito convencida, mas a cidade não é a minha.
O hotel Dazzler Polo é muito bom, eu super recomendo. A região é linda, Palermo foi uma ótima experiência, eu já conheço Buenos Aires, a viagem não era de turismo, e a região de Palermo é arborizada e com muitos parques.
O quarto, ah, o quarto! Enorme, muito limpo, com uma parte com espaço para guardar comida (acho que alguns quartos são tipo flat), uma mesa, as camas ótimas, o chuveiro ótimo, banheiro espaçoso, piso de madeira, tudo bom. 
Bom, sou ansiosa. Novidade. Queria mesmo ter pego o kit na sexta, não sou da turma da véspera. Mas não tive a opção,e  fomos eu, Simone e Ana Paula para o longinquo local de entrega dos kits. Realmente não foi  legal a escolha do lugar, era muito fora de mão de tudo. Fomos depois das 10h, a fila dava uma volta na quadra, do lado de fora e no sol. Ao contrário da previsão do tempo, estava calor. Ficamos mais de duas horas. Quando entramos, havia uma divisão conforme o número de peito, mas não tinha divisória, o povo furava mesmo, e era discrepante a quantidade de pessoas em cada fila, além da fila especial para a elite, ou seja, uma pessoa destinada a eles que não tinha praticamente ninguém para atender.
Nesta fila fiquei mais uma hora, as meninas menos, e elas foram olhar a expo. A estratégia de ficarem os expositores no meio, com a fila naquele tamanho, não foi boa. Enquanto estava na fila só bati papo com desconhecidos e ficamos cuidando para ver quem furava, e depois...bom, sinceramente, eu queria ir embora e descansar, não vi nada do que tinha, só fui direto onde tinha gel e carbo e fomos embora. Gastando uma pequena fortuna para ir e voltar do lugar. 
Ainda bem que os meninos não foram comigo, foram passear, que era o melhor a fazer, até porque Arthur não conhecia a cidade. 
O kit. Bom, coisas muito estranhas no kit. A camiseta regata era não exatamente feia, mas muito mal cortada e de tecido de qualidade duvidosa. Escrito Adidas, mas não, não era Adidas. E tinha comida, muita comida, nozes, castanhas, sucrilhos com açúcar, balas (muitas balas, comida típica de corredor sqn), gel de carbo. um. 
Fui dormir cedo, dei aquela confirmada de que tinha meu transfer para a largada. 
Então vamos ao domingo. 
Acordei às 4h, queria que desse tempo para tudo, inclusive para ir ao banheiro, né? Deixei as opções de roupa, escolhi, e fui passar todo o pink cheeks para evitar assadura do universo, quase no corpo todo. Parece bobagem, mas eu queria me ocupar só da corrida em si, não queria pensar em assadura, cortes, bolhas, de modo que usei tudo o que podia para evitar os desconfortos. Levei ainda um sachezinho de creme (quem guarda dos kits e brindes tem)  para passar depois de usar o banheiro químico e garantir que não teria atrito. 
Eu tinha levado coisas para o café da manhã, para não passar aperto. Foi bom, porque embora houvesse torradinhas sem gluten e frios, o café servido às 5h não tinha os ovos mexidos prontos ainda. Então a pasta de amendoim que levei foi bem importante.
O transfer combinado para às 5h40 chegou quase 6h, mas depois vi que estava tudo certo. Eu nem sentia frio, e acabei optando por não usar  manguito, não levar casaco, e fazer o que pudesse para não usar o guarda volumes. Como ia dar certo? levei em embalagens descartáveis o que precisava no pré prova, uma garrafinha de água mineral para o BCAA em pó, bicarbonato e cápsulas, saquinho com batata doce chips, tudo conforme orientação da Nádia (a nutri). Chegamos cedo, e como eu sei quem eu sou, tirei fotos do ônibus, da rua onde estacionou e na hora em que disseram o nome da rua já mandei para o Péricles, porque eu sabia que depois da prova eu não encontraria nada nem lembraria de nada. 
Direto para a fila do banheiro quando cheguei, nossa, já estava bem sujo. Mas foi rápido, e antes das 6h30min eu já estava pronta para ir para o meu curral, que era o último, o dos que pretendiam fazer a prova em até 6 horas, tempo limite, e dos que nunca tinham corrido maratona, porque aí não tinham outros tempos para comprovar capacidade de estar em um curral melhor. Não achei má ideia, afinal eu tinha que controlar o ritmo na largada, e para a autoestima eu esperava ser bom ter a chance de ultrapassar. Fiz um aquecimento, um alongamento, liguei a parafernália, foi ótimo e tranquilizador ter tempo para seguir minhas maluquices e rituais com tempo sobrando. Liga tomtom, espera sinal, vem sinal, desliga a faz de novo, para ver se está tudo bem. Liga playlist, confere, fone no ouvido, cabelo ajeitado, gira tornozelos, faz agradecimento, tudo aquilo. 
Ou seja, estava acontecendo exatamente como eu planejei e quis. E eu mentalizava isso: só vou entregar o que eu treinei, e me divertir no caminho. 
O que é sempre muito louco, e na maratona foi ainda mais, é que eu fico lá, no meio das milhares de pessoas, que vão fazer a mesma coisa que eu, e é o momento em que me sinto mais só. É uma solitude indescritível. 
E aí a gente largou. E sinceramente, até o km 15 nem percebi o tempo passar, como nos treinos. Ainda mais porque esse começo pega a cidade mesmo, lugares onde fui passear, fica um city tour, e tem gente nas ruas. Depois segue para a via expressa de lá, uma autoestrada, feia. Com elevados e pontes, muitos elevados. Não foi o que treinei, para mim seria tudo beeem plano. E não era. E subindo o elevado a gente via a elite voltando, hahahaha. Eu no km 12km, por aí, e eles voltando sei lá de onde. 
Subimos bem, e a região era feia. Tipo favela, com policiais do outro lado da estrada com coletes à prova de balas. Nada charmoso. Pô, a parte mais dura da prova até então ser também a mais feia não precisava. Depois a gente entrava em uma rua, passava na frente do estádio do Boca Juniors, meninos paravam de correr para tirar foto, e passamos pelo Caminito, para mim a parte mais bonita, depois o porto, bem legal. Mas ali não tinha NINGUÉM para ver a gente passar, só quem já estava na rua indo para algum lugar. Aliás, não era assim aquela plateia toda na maior parte da prova. Basicamente, dos 12km aos 25km não tinha ninguem na rua. Depois tem as avenidas largas da cidade, e fica mais animado, com batuque, uns sambas, e teve até Wando em um dos trechos, depois Jorge Bem com Taj Mahal, e aí foi bem emocionante. 
Podem perceber que eu estava até ligada no que se passava na prova. 
Sinceramente, eu estava correndo muito feliz. Seguindo o plano, fazendo tudo que tinha planejado, menos o pace, que não deu tão certo pelas subidas. Pelas subidas e pela hidratação. Não planejei o copo aberto de papelão. Não treinei isso. Para água, três pontos com garrafa e o resto como o isotônico e a água em copo aberto. Eu tenho o meu problema, aspirar, babar, então tinha que caminhar para tomar, o que me fez tomar menos do que gostaria, paciência. Mas era farta a hidratação, não faltou. 
Depois de alguns pontos mudei a estratégia: vendo o posto de água, abria minha garrafinha, deixava a tampinha presa nos dentes, pegava o copo, virava na garrafinha correndo mesmo, caía pelo menos metade dentro da garrafa, jogava fora o copo, tampava a garrafinha e tinha água gelada por mais tempo, sem parar. 
Não estava calor, e o sol ia e voltava, então eu achei super bom. 
O que levei e usei: gel, conforme combinado; duas garrafinhas, uma com água para garantir  e outra com carbolift, para alternar com o gel. Não tinha congelador no quarto, nem gelo, então a água esquentou, naturalmente. Tinha que ser a da organização, que estava em boa temperatura. Eu não queria engolir cápsulas, e já tinha as do bcca nos km 15 e 30, então o sal eu levei sachezinhos que, com o suor, ficaram grudentos, e eu rasgava o saquinho e ficava comendo o que dava. Mas não foi ruim. Tudo cabendo nos bolsos short Vivian Bogus.
Em alguns pontos tinha comida, e é triste ver a falta de empatia em todo o lugar, e até entre nós corredores. Jogavam a casca das bananas no chão, onde a gente passava em seguida. Detalhe: havia muitos latões de lixo após os pontos de hidratação e comida. 
Os meus geis, que não coincidiam com os pontos, eu esperava para jogar no lixo da via pública mesmo, e pedi para um policial na rua para pegar o meu,  ele não soube o que fazer, de modo que pegou. 
Muro? não teve muro. 
O negócio da cabeça comandar realmente é bem forte. Eu estava bem, me sentia muito bem fisicamente  e ia no keep running. Diferente do que ocorre em meia maratona, que eu aprecio a paisagem, eu estava muito focada em correr simplesmente. Não queria distrações. 
Eu tinha aquela segurança até o km 36. Por que? Meu maior treino foram 34km, e eu terminei com folga. Isso foi bem importante porque todo mundo fala do muro aos 30km ou 35km e eu tinha tanta certeza de que não teria isso em nenhum dos dois, que estava tranquila. Só que do 30km em diante você vê pessoas sofrendo muito, Gente encostada nas muretas, que senta, que alonga, que deita no chão, que caminha, caminha...E aí você se pega pensando: eu deveria estar assim correndo feliz? Sim, deveria. Está tudo certo, treinei para isso.
Vi banheiros pelo caminho. Não precisei usar, felizmente. 
Do 36km ao 40km não foi bom. Foi o momento do "só mais um"km, para ir em frente. 
Eu percebi que o ovo tinha feito falta no café da manhã, senti fome. E embora normalmente não  coma banana pré treino, e não queria tentar nada novo, percebi que eu precisava comer algo. Peguei uma banana no local da organização, km 39, e foi a melhor coisa que fiz, me deu o gás.
No 40km, uma subida. Desnecessária, fim de prova, no meio da universidade,  não tinha nada para distrair, só mais gente caminhando, correndo, comecei a usar técnicas de reparar em cores, passadas, tênis.
Mas do 40km em diante eu já estava no "acabei", não tinha nenhuma dúvida de que ia completar a prova e super inteira. Eu estava cansada, as pernas pesaram lá pelo 38km, e eu não tinha sobra para acelerar como seria o ideal, tentava correr mais rápido e nada acontecia. Ao mesmo tempo, de repente me deu a tristeza de que ia acabar de verdade. E eu estava adorando, não queria mais que aquilo terminasse. Aquela sensação delícia na alma, de superação, de resultado a tudo, de leveza, de plenitude, de estar fazendo a coisa certa no momento e lugares certos. Não fiquei super relembrando todos os momentos de treinos e renúncias até ali, porque para mim não foi assim tão sofrido o ciclo, eu lembrava dos treinos com alegria, e via que tinha valido tanto a pena!! 
Fui acompanhando minhas parciais e vi que o tempo não seria exatamente o que eu gostaria inicialmente, menos pela corrida e mais pelas caminhadas para tomar a água e o isotônico.
Quando a gente passa o km 41, tem bastante gente torcendo, fazendo yes, crianças, aí é a emoção.
Eu sabia que os meninos me esperariam, só não sabia como seria.
Tinha um pórtico de 42km, eu tinha visto na largada, ele não ia me enganar. Com minhas voltas para ultrapassar e saídas para jogar coisas no lixo e tal, fiz uns 150m a mais, paciência.
Já no km41 eu pausei o som, queria ouvir as vozes, as chegadas, as torcidas, as comemorações, e no portal dos 42km ouvi os meus meninos, e Arthur veio ao meu lado terminar comigo, pedi até para ele maneirar porque não ia aguentar o ritmo dele, e fomos juntos para a chegada, correndo, firme, acelerei vendo a chegada  e foi muito, muito lindo. Cheguei vibrando, não morri depois, só comemorava, sorria, o choro foi antes, foi no 41, ali na chegada houve momentos, mas com Arthur comigo eu fiquei extasiada.
Deu certo não usar o guarda volumes porque o Péricles levou o que eu precisava para o pós prova, que deixei prontinho na mochila. 
Sempre mentalizei a chegada feliz, inteira, e foi assim que aconteceu. Diogo Gamboa fala que mais do que preparar o corredor para a prova, ele quer que a gente corra a prova e termine bem, e não morrendo, porque aí não estava preparado.
Soube que não teve medalhas para todo mundo, quando eu cheguei tinha medalha pacas. Estava tranquilo, e me disseram que tinha bastante taxi na região, com preços fixos. 
Se eu alcancei meu objetivo? Fiz uma ótima prova. Não sabia como ia ser, lembrava direto da meia de NY, minha primeira, e pensava como estava sendo tudo diferente, sou uma corredora diferente da que fez aquela prova, além de todos os apetrechos de agora. Curti inclusive a distância. Mas a felicidade, a emoção, o correr em si, era tudo igual. Sei que se espera que na primeira maratona o objetivo seja terminar, mas essa não é a minha.
Eu fiz uma conta para fazer a prova em 3h45min, e achei que dava. No km21, vi que seria difícil porque ainda tinha a volta com os elevados e as subidas que agora eu já sabia, mais a do km40 que eu também sabia que viria. Meu plano B era menos de 4h, um lastro bom, né? 
E fiz em 3h50'41. Mais do que o plano A, bem menos do que o plano B. E o melhor de tudo: sem achar que ia morrer, na prova, sem dores, caminhando normalmente ao final, e no dia seguinte!! Nem consegui dormir à tarde, porque embora cansada, estava muito feliz e meio maluca.
Ah, tinha a meta absoluta, pegar o transfer das 11h30min para o hotel, porque o outro era às 13h, não queria esperar. Deu tempo de pegar as bebidas, frutas, e tomar o whey. Com ajuda do marido, chegamos ao onibus, e com mais um corredor , sua esposa e filho, voltamos para o hotel. Quando parou o ônibus na frente, do outro lado da rua, saltamos todos. Eu fui para o lado direito, o outro corredor para o lado esquerdo. As famílias olharam: onde vocês vão?! Corredor fica muito lesadoooooo, eu não tinha nem ideia de que lado era para ir, e era para frente hahahaha.
Dali em diante, só felicidade, uma euforia estranha...almoçar com medalha, andar com medalha, naturalmente. 
Tanta gente me fala que quando termina pensa "nunca mais", e alguns meses depois muda de ideia.
Eu terminei, olhei para o Arthur e disse: quando vou fazer a próxima?
O que posso dizer, por fim, é que tive os melhores perto de mim: técnico, massagem, nutri, amigas inspiradoras, motivação, e fiz a minha parte: treino, alimentação, sono, recuperação. E tive um bom dia de correr, que é algo que a gente não sabe se vai acontecer. 
Obrigada, Diogo, Nadia, Daia, Eduardo, Marcelo da VR Sports, e à Simone e Ana Paula, parceiras na jornada, a Ana sempre com algo muito carinhoso para dizer. Conheci pessoas, algumas apenas virtualmente pelo grupo do whatts que a Vivian Bogus criou, mas ajudaram muito na parte da autoconfiança. 
Encerro com o coração cheio de gratidão pelo caminho percorrido e pelo que encontrei no final. 
Trabalhar por alguma coisa e perceber que é possível. Não tem preço. 
Obrigada por me acompanharem. 
Foto oficial da prova. Chama-se foco essa cara...kkk

 Sim, eu cheguei assim, e acho que cheguei melhor do que o pessoal atrás de mim!!! Essa é foto oficial do marido!

 aqui para verem a camiseta da prova. Não era feeeeia, mas o caimento nao dava para mim.

Fiz! Treinei, vim, fiz, e segue o baile!!!





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